INSTITUTORIZOMAS

Relatório Técnico de Impacto Social 2025

O bem-estar de crianças e adolescentes no Capão Redondo

Mensuração: SIC — Social Impact
Organização: Instituto Rizomas
Local: Capão Redondo, São Paulo
Data: 2025

Introdução

Este é o primeiro ciclo de mensuração de impacto social do Instituto Rizomas, conduzido pela SIC (Social Impact) em 2025.

A mensuração usa o bem-estar como indicador central. Bem-estar, aqui, é a avaliação que a própria pessoa faz da sua vida como um todo, medido por uma escala científica validada em dezenas de países (a Escala de Satisfação com a Vida, de Ed Diener, 1985). A fundamentação dessa escolha e os detalhes do instrumento estão na seção seguinte.

O objetivo foi construir uma fotografia inicial do bem-estar das crianças e adolescentes atendidas pelo programa, identificar quais fatores mais importam para esse bem-estar, e avaliar sinais de associação entre a participação no Rizomas e os resultados observados.

Este relatório foi desenhado para ser lido depois do Relatório de Resultados. Ele detalha a abordagem de mensuração, a fundamentação das escolhas metodológicas, e apresenta os resultados completos com o contexto analítico necessário para interpretá-los.

Este relatório trata da mensuração de capacidades e oportunidades e sua relação com o bem-estar. Não aborda os resultados acadêmicos e cognitivos do programa, como alfabetização, desempenho em matemática ou inglês. Esses resultados existem e estão documentados no Relatório de Resultados. O que está aqui é a camada que fica por trás deles. As condições internas e externas que permitem que esses resultados aconteçam e se sustentem.

O ciclo de 2025 foi desenhado como um piloto. Permitiu testar os instrumentos de coleta, calibrar as perguntas para a realidade do território, e gerar as primeiras evidências sobre o funcionamento do programa. A partir de 2026, a mensuração passa a incluir acompanhamento longitudinal dos participantes, com medidas repetidas que permitirão observar mudanças individuais ao longo do tempo.

PARTE 1:
Abordagem de mensuração

Esta seção explica como mensuramos impacto social e por que escolhemos mensurar assim.

Fundamentação da Abordagem de Mensuração

Crédito metodológico. Este relatório aplica o Huber Social Wellbeing Measurement Framework, desenvolvido na Austrália e codificado no SA HB 204:2022, o handbook da Standards Australia sobre mensuração de impacto social que a Huber Social liderou com a Blavatnik School of Government da Universidade de Oxford, a Trust Waikato e a Sweef Capital. Todo o crédito pela metodologia vai para a Huber Social e seus coautores.

Por que bem-estar como indicador geral

A pergunta central de qualquer mensuração de impacto social é: a vida dessas pessoas está melhor?

Para respondê-la, é preciso um indicador que capture a vida como um todo, não uma dimensão isolada. Uma nota escolar pode subir sem que as condições de vida tenham mudado. Um indicador de saúde pode melhorar enquanto relações sociais se deterioram. A vida é interconectada, e um indicador fragmentado pode mostrar progresso onde não existe.

Escolhemos o bem-estar subjetivo como indicador, medido pela Escala de Satisfação com a Vida (Satisfaction With Life Scale, SWLS), desenvolvida por Ed Diener em 1985. A SWLS é um dos instrumentos mais utilizados e validados na psicologia do bem-estar. Avalia como a pessoa julga a própria vida de forma global, a partir de cinco afirmações sobre satisfação geral.

Pesquisadores validaram a escala em dezenas de países e em populações diversas, incluindo o Brasil (Gouveia et al., 2009). Sua robustez psicométrica está documentada em mais de três décadas de uso em pesquisa. Pavot e Diener (2008) revisaram os estudos acumulados desde a publicação original e confirmaram que a SWLS apresenta consistência interna elevada, estabilidade temporal adequada e sensibilidade a mudanças reais nas condições de vida.

Para a aplicação com crianças e adolescentes do Rizomas, adaptamos a escala em linguagem para garantir compreensão, mantendo a estrutura original. Testamos as adaptações com um grupo piloto de 5 participantes antes da aplicação com o grupo completo.

O bem-estar funciona como o topo da mensuração. Ele diz se a vida está melhor ou pior. Mas sozinho, não diz o que fazer. Para agir, é preciso entender o que puxa esse número para cima ou para baixo.

O que move o bem-estar: capacidades e oportunidades

A mensuração se organiza em três níveis. O bem-estar é o indicador-âncora. Abaixo dele estão as mudanças (outcomes, na terminologia internacional de mensuração de impacto), as dimensões que influenciam o bem-estar, divididas em capacidades (o que a pessoa consegue fazer e ser) e oportunidades (o que o ambiente oferece). Abaixo das mudanças estão os fatores, os indicadores específicos e mensuráveis dentro de cada mudança.

A distinção entre capacidades e oportunidades não é apenas conceitual. Ela determina a ação. Se um fator é uma capacidade com nível baixo, o caminho é desenvolver. Se é uma oportunidade ausente, o caminho é prover acesso. Confundir os dois desperdiça recurso. Um programa que tenta "ensinar resiliência" quando o que falta é um adulto de confiança está mirando no lugar errado.

O arcabouço da Huber Social não impõe uma visão fixa do que importa para o bem-estar. Em vez disso, pergunta a cada população quais são seus fatores locais de bem-estar e, em seguida, mensura esses fatores. Por isso as 10 mudanças usadas neste relatório não foram selecionadas a partir de uma lista genérica — elas emergiram da escuta territorial descrita na próxima seção.

Como as mudanças e fatores foram identificados

A seleção do que mensurar seguiu um processo em três etapas.

Primeiro, a escuta. Antes de definir qualquer instrumento, a equipe da SIC conduziu conversas com as pessoas que vivem a realidade do programa: os próprios jovens atendidos, seus pais e familiares, educadores, coordenação pedagógica, assistentes sociais e membros da comunidade do Capão Redondo. O objetivo era entender, a partir da experiência vivida, o que influencia a vida dessas crianças e adolescentes, o que faz diferença no dia a dia, o que falta, o que funciona.

Segundo, o filtro de atuação. De tudo que emerge da escuta, nem tudo pode ser mensurado de forma útil. Fatores como saneamento básico, segurança pública e renda familiar apareceram nas conversas como problemas reais e graves. Mas o Rizomas não tem como alterar a infraestrutura do bairro ou a política de segurança da cidade. A mensuração prioriza fatores sobre os quais o programa tem capacidade de influência. Isso não significa ignorar o contexto. Significa reconhecer que o papel do programa é desenvolver nas crianças e adolescentes as capacidades, e prover as oportunidades, que lhes permitam se desenvolver mesmo dentro de um ambiente adverso.

Terceiro, ancoragem na base de evidências. Os fatores identificados na escuta — já filtrados pela capacidade de atuação do programa — foram cruzados contra uma base de evidências proprietária, construída e curada pela Huber Social em conjunto com seus parceiros de mensuração, incluindo a SIC (Social Impact). Essa base reúne mais de uma década de pesquisa científica revisada por pares sobre desenvolvimento infantil e adolescente, é continuamente atualizada, e é indexada por propósito do programa, missão, demografia do público-alvo e variáveis contextuais — de modo que o desenho de mensuração de cada projeto se ancora em evidência diretamente relevante à sua população. Cruzar os fatores contra essa base, em vez de fazer buscas ad-hoc na literatura, é o que permite combinar escuta territorial com evidência científica consolidada de forma reproduzível. O resultado são 10 mudanças (5 capacidades e 5 oportunidades) desdobradas em aproximadamente 40 fatores mensuráveis, cada um com uma pergunta no instrumento de coleta.

Como ler os números deste relatório

Esta seção explica os principais indicadores estatísticos que aparecem nas tabelas do relatório. Conhecer esses conceitos transforma a forma de interpretar os resultados — permite separar achados sólidos de variações que podem ter ocorrido por acaso.

Não é necessário ser estatístico para entender. Cada conceito está explicado com a história que ele conta, não com a fórmula que tem por trás.

ρ (rô) — Correlação de Spearman

Mede o quanto duas coisas variam juntas. Vai de −1 a +1.

ρ = +0,50 significa: quando uma sobe, a outra também sobe (relação positiva moderada). ρ = −0,50 significa: quando uma sobe, a outra desce. ρ = 0 significa: não andam juntas.

Exemplo concreto: a correlação entre "Hábitos e rotinas" e bem-estar é 0,50. Isso significa que jovens com hábitos e rotinas mais consolidados tendem a relatar maior satisfação com a vida — e o oposto também. Não é uma relação automática, mas uma tendência clara.

p (valor-p) — A pergunta "isso pode ter sido acaso?"

O valor-p responde: se o efeito real fosse zero, qual a probabilidade de observarmos um resultado tão forte quanto o que medimos, só pelo acaso da amostragem?

Por convenção, se p < 0,05, considera-se que o resultado é "estatisticamente significativo" — improvável que tenha sido acaso.

Exemplo concreto: uma correlação de 0,50 com p = 0,002 quer dizer: se de verdade não houvesse relação entre as duas variáveis, a chance de observarmos ρ = 0,50 ou mais forte seria de apenas 0,2%. Muito improvável. Resultado confiável.

Já uma correlação de 0,15 com p = 0,18 quer dizer: pode ser apenas variação aleatória. Não dá para concluir nada.

IC 95% — Intervalo de Confiança

O número que reportamos (ρ = 0,46, por exemplo) é a melhor estimativa que conseguimos com os dados disponíveis. Mas é uma estimativa, não a verdade absoluta. Com outra amostra, o número seria um pouco diferente.

O intervalo de confiança 95% mostra a faixa em que o valor verdadeiro provavelmente está. Quanto mais estreito, mais precisa a estimativa.

Exemplo concreto: ρ = 0,46 com IC 95% [+0,27, +0,62] quer dizer: nossa melhor estimativa é 0,46, mas o verdadeiro pode estar entre 0,27 e 0,62. Ainda é uma correlação positiva, mas a faixa é larga porque a amostra é pequena (n=78). Em ciclos com mais participantes, a faixa fica mais estreita e a estimativa fica mais precisa.

n — Tamanho da amostra

Quantas pessoas estão sendo comparadas em cada análise. Importa muito.

A análise principal usou os 78 respondentes. Mas comparações entre subgrupos (por exemplo, recém-chegados vs. 2+ anos de programa) trabalham com bem menos. Quanto menor o n, mais frágil o resultado. Diferenças que parecem grandes podem não ser confiáveis se o subgrupo for pequeno.

Exemplo concreto: a comparação de bem-estar entre adolescentes com 0–1 ano (n ≈ 7) e 3 anos (n ≈ 13) é feita com apenas 20 pessoas. A diferença observada é grande, mas o n pequeno significa que o resultado precisa ser confirmado em ciclos seguintes antes de virar afirmação.

Cliff's δ — Tamanho do efeito

Significância (p) diz se um efeito existe. Tamanho do efeito (Cliff's δ) diz o quão grande é.

Um teste pode ser significativo (p < 0,05) mas o efeito ser pequeno demais para ter relevância prática. Reportar os dois evita confundir "estatisticamente diferente" com "praticamente importante".

Como interpretar Cliff's δ:
|δ| < 0,15 → desprezível
|δ| ≈ 0,15–0,33 → pequeno
|δ| ≈ 0,33–0,47 → médio
|δ| > 0,47 → grande

Correção FDR — Testando muitas hipóteses ao mesmo tempo

Quando se testa muitas correlações ao mesmo tempo (por exemplo, 10 mudanças contra bem-estar), o risco de aparecer um falso positivo aumenta. Com 10 testes simultâneos e p < 0,05, esperaríamos cerca de 0,5 "achado" por puro acaso, mesmo se nada de verdade existisse.

A correção FDR (False Discovery Rate, método de Benjamini-Hochberg) ajusta os p-values para controlar essa taxa. Resultados que sobrevivem à correção FDR são mais robustos.

Como aparece nas tabelas: mostramos o p bruto (sem correção) e o p (FDR). A coluna "Signif." marca ✓ apenas quando o achado resiste à correção.

A partir daqui, as tabelas do relatório usam estes indicadores. Não é necessário decorar — basta consultar esta seção quando uma dúvida surgir.

Tese de Impacto do Instituto Rizomas

A tese de impacto do Rizomas parte de uma premissa. Capacidades cognitivas se desenvolvem melhor quando habilidades socioemocionais já estão sendo construídas. E habilidades socioemocionais se consolidam quando o ambiente permite praticá-las com segurança. O Rizomas opera nesse ciclo.

Esta tese é testada empiricamente na Parte 3 deste relatório, por meio de análise de mediação.

1. Impacto

Elevar o bem-estar de crianças e adolescentes em contextos de vulnerabilidade, para que estejam na melhor posição para alcançar seu potencial e viver uma vida que valorizam.

2. Mudanças (Outcomes)

O Rizomas alcança este impacto desenvolvendo capacidades e proporcionando acesso a oportunidades.

Capacidades

Autogestão

Atenção sustentada, controle inibitório, flexibilidade cognitiva, planejamento

Regulação Emocional

Consciência emocional, percepção dos sinais do corpo, estratégias de regulação, recuperação após frustração

Competências Sociais

Empatia, comunicação respeitosa, resistência à pressão de pares, resolução de conflito sem agressão

Responsabilidade

Cumprir combinados, cuidado com pertences, hábitos e rotinas, honestidade e integridade

Orientação ao Futuro

Autoeficácia, esperança (sonhos e caminhos), perseverança

Oportunidades

Adulto de Confiança

Adulto de referência, orientação clara e útil, encorajamento, estrutura e limites justos

Ambiente Seguro

Segurança psicológica, regras claras e justas, previsibilidade, resolução respeitosa de conflitos

Amizades Positivas

Normas pró-sociais, amizades positivas, apoio do grupo, pertencimento

Reconhecimento

Elogio específico, valorização do esforço, feedback com próximo passo, altas expectativas

Desenvolvimento Pessoal

Aprendizagem significativa, aplicação do aprendizado, protagonismo, modelos positivos

3. Outputs

Os resultados diretos das atividades entregues pelo Instituto Rizomas.

4. Atividades

Ações tomadas ou trabalho realizado para atingir os outputs, mudanças e impacto.

5. Recursos

Recursos financeiros, humanos e materiais investidos na criação e operação do programa.

Desenho do Estudo

Objetivo

Gerar uma fotografia inicial do bem-estar dos participantes do Instituto Rizomas, identificar os fatores mais associados a esse bem-estar, mapear necessidades prioritárias e pontos fortes, e avaliar sinais de associação entre a participação no programa e os resultados observados.

Amostra

A população-alvo foram os 88 jovens que concluíram o ano de 2025 no contraturno escolar do Instituto Rizomas. Desses, 78 responderam ao questionário — uma taxa de resposta de 89%. O programa atende um número maior de jovens ao longo do ano; os 88 são os que concluíram o ciclo completo de 2025.

N%
Concluíram o ano de 202588
Participantes avaliados7889%
Crianças (até 11 anos)4760%
Adolescentes (12–17 anos)3140%
TerritórioCapão Redondo, São Paulo
Período de coleta2025
Sobre margem de erro: a margem de ±3,6% que se costuma reportar em estudos como este se refere à proporção de resposta (78 de 88 — quase todos foram entrevistados). Para estimativas dentro do grupo de 78, a margem efetiva é maior — aproximadamente ±11% para proporções e variável para correlações (ver coluna IC 95% em cada tabela). Este relatório reporta IC para todas as análises principais.

Os participantes foram divididos em subgrupos para as análises comparativas: por tempo de programa (recém-chegados vs. 2+ anos), por frequência de presença (alta ≥90% vs. baixa ≤73%), e por participação nas atividades socioemocionais de domingo (participa vs. não participa).

Instrumentos

O bem-estar geral foi medido pela Escala de Satisfação com a Vida (SWLS), adaptada em linguagem para o contexto e a faixa etária dos participantes, mantendo a estrutura original de cinco itens.

As mudanças e fatores foram medidos por escalas Likert de 5 pontos, convertidas para uma escala de 0 a 100 para facilitar a interpretação. Cada mudança contém entre 3 e 4 fatores, cada fator medido por itens específicos. Ao todo, aproximadamente 40 fatores foram mensurados.

Análise

MétodoAplicação
Correlação de Spearman (ρ)Relação entre fatores e bem-estar
Teste de Mann-Whitney UComparação entre subgrupos
Cliff's δTamanho do efeito (magnitude prática)
IC 95% — Fisher zFaixa plausível das correlações
Correção FDR (Benjamini-Hochberg)Controle de falsos positivos em múltiplos testes
Significânciaα = 0,05
Escala de bem-estarSWLS adaptada (Diener, 1985)
Escala de fatoresLikert 1–5, convertida para 0–100
Análise de mediaçãoBootstrap, 5.000 amostras

Design e suas implicações

Este ciclo utilizou um desenho transversal (cross-sectional), medindo todos os participantes em um único ponto no tempo. As comparações entre grupos (por exemplo, recém-chegados vs. participantes com 2+ anos) mostram associação, não causalidade. É possível que diferenças de perfil entre os grupos expliquem parte dos resultados observados.

A partir do ciclo de 2026, a mensuração passa a incluir acompanhamento longitudinal, com medidas repetidas dos mesmos participantes ao longo do tempo. Isso permitirá observar mudanças individuais e fortalecer as evidências sobre o efeito do programa.

PARTE 2:
O Diagnóstico Inicial*

*Normalmente, essa parte do relatório é referente ao baseline (linha de base). Como fizemos no fim do ano, renomeamos para Diagnóstico Inicial. No início de 2026 vamos coletar o baseline com os novos entrantes do contraturno.

Diagnóstico

Esta seção apresenta os resultados completos da mensuração. O Relatório de Resultados destaca as descobertas centrais. Aqui, todos os dados são apresentados com o contexto analítico necessário para interpretá-los — e agora com os indicadores de rigor estatístico explicados na seção anterior.

Bem-estar geral

O bem-estar médio do grupo é 67,8 numa escala de 0 a 100, com mediana 69,4 e desvio-padrão 11,8. A faixa "levemente satisfeito" a "satisfeito". A média brasileira geral na SWLS é de aproximadamente 63 (Gouveia et al., 2009, referência mais recente disponível com a SWLS no Brasil).

GruponMédiaDPMedianaIC 95% da média
Grupo completo7867,811,869,4[65,2; 70,5]
Crianças (≤11 anos)4769,79,670,4[66,9; 72,4]
Adolescentes (12–17)3165,014,463,3[60,0; 69,9]
Comparação crianças × adolescentes: diferença de 4,7 pontos em favor das crianças. Mann-Whitney U = 844, p = 0,238. Cliff's δ = +0,16 (efeito pequeno). A diferença não é estatisticamente significativa nesta amostra. Em ciclos futuros com n maior, vale acompanhar — adolescência costuma trazer queda no bem-estar, e o programa pode estar amortecendo esse efeito.

O nível absoluto de bem-estar serve como ponto de partida. Cada território e cada população tem uma realidade diferente, e comparar números absolutos entre contextos diferentes tem pouca utilidade. O que importa é o quanto o programa está alinhado com as necessidades que mais influenciam o bem-estar dos participantes, e, ao longo do tempo, o quanto consegue elevá-lo.

O que mais importa para o bem-estar

Correlacionamos cada mudança (outcome) com o bem-estar para identificar quais dimensões mais influenciam a satisfação com a vida desses jovens. Agora com valor-p, intervalo de confiança e correção FDR.

#MudançaTipoNotaρp (FDR)IC 95% ρnSignif.
1Ambiente SeguroOportunidade63+0,59<0,001[+0,42; +0,72]78
2Orientação ao FuturoCapacidade67+0,57<0,001[+0,40; +0,70]78
3ReconhecimentoOportunidade65+0,55<0,001[+0,37; +0,69]78
4Amizades PositivasOportunidade63+0,51<0,001[+0,32; +0,66]78
5Regulação EmocionalCapacidade50+0,50<0,001[+0,31; +0,65]78
6ResponsabilidadeCapacidade64+0,49<0,001[+0,30; +0,64]78
7Adulto de ConfiançaOportunidade63+0,41<0,001[+0,20; +0,58]78
8AutogestãoCapacidade57+0,40<0,001[+0,19; +0,57]78
9Desenvolvimento PessoalOportunidade69+0,300,009[+0,08; +0,49]78
10Competências SociaisCapacidade60+0,250,025[+0,03; +0,45]78
Forest plot das 10 mudanças
Figura 1. Forest plot das 10 mudanças correlacionadas com o bem-estar. Cada ponto é a correlação Spearman; as barras horizontais mostram o intervalo de confiança 95%. Oportunidades em laranja, capacidades em verde. A largura do IC reflete a incerteza da estimativa, naturalmente grande com n=78.

Todas as 10 mudanças (outcomes) apresentam correlação estatisticamente significativa com o bem-estar. Três das cinco mais correlacionadas continuam sendo oportunidades. Para essas crianças e adolescentes, o contexto ao redor puxa mais o bem-estar do que capacidades individuais isoladas — mas o efeito das capacidades também é real e mensurável.

Isso não diminui a importância das capacidades. Significa que, para esse grupo, as oportunidades funcionam como pré-condição. Sem segurança, sem vínculo com adultos de confiança, sem reconhecimento, capacidades como regulação emocional e autogestão têm menos espaço para se desenvolver. O Rizomas trabalha nas duas frentes ao mesmo tempo. Constrói o ambiente e desenvolve as capacidades que esse ambiente permite fortalecer.

Nota: A análise de 2025 agrupou crianças e adolescentes nas correlações gerais. Ao longo do processo, identificamos que isso mascara diferenças de desenvolvimento relevantes. Orientação ao Futuro é um bom exemplo. Para uma criança de 7 anos, projetar o futuro tem pouco peso no dia a dia. Para um adolescente de 15, a capacidade de enxergar um futuro viável funciona como fator de proteção central. Quando os dois grupos entram juntos na análise, um dilui o outro. A análise de moderação por idade na Parte 3 mostra exatamente onde isso acontece. A partir de 2026, crianças e adolescentes serão avaliados separadamente.

Necessidades prioritárias

As necessidades prioritárias são fatores com correlação significativa com o bem-estar e nota ainda baixa. São onde há mais espaço para crescimento e maior potencial de retorno sobre o investimento do programa: dimensões que comprovadamente importam para o bem-estar, mas que ainda estão fracas neste grupo. Todas as necessidades prioritárias são capacidades internas — habilidades que o programa pode desenvolver.

FatorO que significaNotaρp (FDR)IC 95%Signif.Mudança
Estratégias de regulaçãoUsar pausa, respiração ou reavaliação para se acalmar44+0,41<0,001[+0,21; +0,58]Regulação Emocional
Consciência emocionalReconhecer o que está sentindo e colocar em palavras48+0,40<0,001[+0,20; +0,57]Regulação Emocional
Cumprir combinadosCumprir regras mesmo quando ninguém está olhando61+0,380,002[+0,17; +0,55]Responsabilidade
Percepção sinais do corpoPerceber sinais do corpo quando fica sobrecarregado54+0,360,002[+0,15; +0,54]Regulação Emocional
Flexibilidade cognitivaTrocar de estratégia quando algo não funciona53+0,340,003[+0,13; +0,53]Autogestão
Controle inibitórioSegurar o impulso e voltar ao foco53+0,280,014[+0,06; +0,47]Autogestão
Comunicação respeitosaDizer o que pensa com respeito, mesmo discordando56+0,250,030[+0,02; +0,44]Competências Sociais

Esse padrão é coerente com o que a evidência indica. São habilidades que dependem de prática repetida e de um ambiente que permita desenvolvê-las. Não se aprende regulação emocional numa palestra. Aprende-se regulando emoções num espaço onde é seguro errar.

Pontos fortes

Os pontos fortes são fatores com correlação positiva com o bem-estar e nota alta. Representam o que o programa já entrega bem e precisa proteger: dimensões que importam e que os jovens já reconhecem como presentes em suas vidas.

FatorO que significaNotaρp (FDR)IC 95%Signif.Mudança
Altas expectativasTer adultos que acreditam e esperam o melhor74+0,44<0,001[+0,24; +0,60]Reconhecimento
Hábitos e rotinasChegar no horário e cumprir responsabilidades66+0,51<0,001[+0,32; +0,66]Responsabilidade
Amizades positivasTer amigos que puxam para escolhas positivas62+0,48<0,001[+0,28; +0,63]Amizades Positivas
Feedback com próximo passoReceber devolutivas que dizem o que fazer diferente69+0,46<0,001[+0,26; +0,62]Reconhecimento
Adulto de referênciaTer um adulto de confiança para conversar67+0,46<0,001[+0,26; +0,62]Adulto de Confiança
AutoeficáciaAcreditar que dá para aprender e melhorar70+0,340,003[+0,13; +0,52]Orientação ao Futuro
Orientação clara e útilReceber orientação prática sobre como melhorar63+0,250,029[+0,03; +0,45]Adulto de Confiança
Protagonismo e voz ativaTer espaço para dar ideias e participar69+0,230,042[+0,01; +0,43]Desenvolvimento Pessoal

Os participantes relatam ter adultos que acreditam neles, que dão orientação prática e feedback sobre como melhorar. Relatam ter voz, amigos que influenciam positivamente e rotinas que funcionam. O programa entrega as oportunidades que mais importam para o bem-estar desse grupo.

PARTE 3:
Análise aprofundada

Esta seção vai além da fotografia inicial para testar empiricamente como o programa funciona, e mostrar onde o efeito é mais forte.

Testando a Tese de Impacto — Análise de Mediação

A tese do Rizomas diz que o ambiente que o programa oferece cultiva habilidades nos jovens, e que essas habilidades sustentam o bem-estar. Essa é a história. Mas é uma afirmação ou um fato? Para virar fato, precisa de teste.

É possível testar. A ferramenta se chama análise de mediação. O que ela responde é direto: quanto do efeito do ambiente sobre o bem-estar passa pelas habilidades internas que os jovens desenvolvem? O ambiente afeta o bem-estar por causa das habilidades, ou independente delas?

O modelo testado

A análise considera três variáveis agregadas:

Três caminhos são estimados:

O efeito indireto (a × b) é a parte do impacto do ambiente que passa pelas habilidades. Se for grande, a tese se confirma.

Diagrama de mediação Oportunidades → Capacidades → Bem-estar
Figura 2. Modelo de mediação. Setas mostram a magnitude dos efeitos. O efeito indireto (a × b = 0,265) é o quanto do impacto do ambiente sobre o bem-estar passa pelas habilidades internas dos jovens. O IC 95% bootstrap [+0,116; +0,425] exclui zero, confirmando mediação significativa.

O que os números mostram

CaminhoO que medeCoeficientep
aOportunidades → Capacidades0,70<0,001
bCapacidades → Bem-estar (controlando Oport.)0,38<0,001
cOportunidades → Bem-estar (efeito total, sem controlar)0,90<0,001
c'Oportunidades → Bem-estar (efeito direto, controlando Capac.)0,63<0,001
a × bEfeito indireto (mediação)0,27IC 95% [+0,12; +0,43]
Proporção mediada: 30%Bootstrap n=5.000

Como ler isso

O ambiente que o Rizomas cria está fortemente associado às habilidades internas dos jovens (a = 0,70). Esse é o ciclo previsto pela tese do programa: ambiente seguro, adulto de confiança, reconhecimento → desenvolvimento de regulação emocional, autogestão, orientação ao futuro.

As habilidades internas, por sua vez, sustentam o bem-estar (b = 0,38) mesmo quando controlamos o ambiente. Não é o ambiente direto que faz o jovem feliz — são as habilidades que o ambiente permite construir.

O efeito indireto — a parte do impacto do ambiente sobre o bem-estar que de fato passa pelas habilidades — é 0,27, com intervalo de confiança 95% [+0,12; +0,43]. O IC não inclui zero. A mediação é estatisticamente significativa.

A proporção mediada é 30%. Isso significa: cerca de um terço do efeito do ambiente sobre o bem-estar acontece através do desenvolvimento das habilidades. Os outros dois terços do efeito (c' = 0,63) acontecem por outra via — provavelmente o efeito direto da sensação de pertencimento, segurança e cuidado, sem precisar passar por mudança de habilidade.

O que isso significa para o Rizomas: a tese de impacto do programa é parcialmente confirmada empiricamente. O ambiente que o Instituto cria afeta o bem-estar dos jovens por duas vias. Uma via é imediata: o jovem se sente seguro, pertencente, valorizado, e isso por si só já sustenta o bem-estar. A outra via é mais lenta, mais transformadora: o ambiente cultiva habilidades internas (regulação emocional, esperança, autogestão) que sustentam o bem-estar a longo prazo, mesmo quando o jovem sai do Rizomas. As duas vias importam, e o programa opera nas duas ao mesmo tempo.

Cuidado importante: este é um modelo de mediação testado com dados transversais. Ele mostra um padrão de associação consistente com a tese, não prova causalidade. Em 2026, com medidas repetidas dos mesmos jovens, será possível verificar se mudanças no ambiente em um momento precedem mudanças nas habilidades no momento seguinte. Isso fortaleceria substancialmente a interpretação causal.

Os mesmos fatores importam para crianças e adolescentes? — Moderação

Misturar crianças (≤11 anos) e adolescentes (12–17) numa mesma análise mascara diferenças importantes de desenvolvimento. Para uma criança de 7 anos, "Orientação ao Futuro" tem peso pequeno no dia a dia. Para um adolescente de 15, ver um futuro viável funciona como fator de proteção central.

Esta análise compara, para cada mudança, a correlação com o bem-estar separadamente em cada grupo etário. Onde a diferença entre os dois grupos for grande, há indicação de que o programa pode (ou deve) atuar de formas distintas para cada faixa.

Comparação de correlações entre crianças e adolescentes
Figura 3. Correlações de cada mudança com o bem-estar, separadas por faixa etária. Pontos verdes: crianças (n=47). Pontos laranjas: adolescentes (n=31). A linha cinza conectando os pontos mostra a magnitude da diferença entre os grupos.
MudançaTipoρ Crianças (n=47)ρ Adolescentes (n=31)Δρp (FDR)
Adulto de ConfiançaOp+0,18+0,73−0,550,003
Orientação ao FuturoCap+0,38+0,79−0,410,021
Desenvolvimento PessoalOp+0,17+0,46−0,290,135
Ambiente SeguroOp+0,47+0,72−0,250,182
Amizades PositivasOp+0,42+0,63−0,210,256
ReconhecimentoOp+0,49+0,65−0,160,382
ResponsabilidadeCap+0,44+0,57−0,130,496
Regulação EmocionalCap+0,46+0,57−0,110,565
AutogestãoCap+0,38+0,46−0,080,687
Competências SociaisCap+0,24+0,32−0,080,718

O que ler nisso

Duas mudanças apresentam diferença estatisticamente significativa entre crianças e adolescentes: Adulto de Confiança e Orientação ao Futuro. Ambas têm correlação muito mais forte com o bem-estar para adolescentes do que para crianças.

Adulto de Confiança importa para os dois grupos, mas para adolescentes é praticamente decisivo (ρ = +0,73). Faz sentido com o estágio de desenvolvimento. Crianças mais novas ainda têm muitas figuras adultas ao redor (pais, professores) e o peso individual de um adulto de referência é diluído. Adolescentes estão se diferenciando dos pais e procurando referências fora de casa — quando encontram um adulto que olha para eles com atenção real, isso pesa muito.

Orientação ao Futuro tem o mesmo padrão. Para crianças de 7 a 11 anos, "esperança nos sonhos" e "perseverança" têm conexão mais frouxa com o bem-estar do dia a dia. Para adolescentes, projetar um futuro viável funciona como ancoragem. Sem essa ancoragem, a vulnerabilidade do território puxa o bem-estar para baixo.

As outras 8 mudanças tendem a importar igualmente para os dois grupos (todas com correlação positiva e significativa em ambos), mas sem diferença estatística entre as faixas. Isso é informativo: a base do programa funciona para crianças e adolescentes igualmente. O que muda é o peso relativo de algumas dimensões específicas.

Implicações operacionais: para adolescentes, fortalecer especificamente as relações com adultos de referência e o trabalho com projetos de vida pode gerar retorno desproporcional sobre o bem-estar. Para crianças, esses fatores também importam, mas o que mais sustenta o bem-estar é a combinação ampla de um ambiente acolhedor, com amizades positivas e reconhecimento. A partir de 2026, com a coleta separada por faixa, será possível afinar isso ainda mais.

PARTE 4: A Análise

Onde estão as oportunidades. Como o tempo de programa, a presença e a participação socioemocional se associam aos resultados.

Resultados

Onde as oportunidades acontecem

Se as oportunidades são o que mais importa para o bem-estar, a pergunta seguinte é de onde elas vêm na vida desses jovens.

Para cada fator de oportunidade, fizemos duas perguntas. A primeira ("Onde você encontra isso?") permitia marcar todos os contextos aplicáveis. A segunda ("Onde isso é mais verdadeiro para você?") pedia uma única escolha.

A tabela abaixo compara a frequência com que os participantes atribuem cada oportunidade ao Rizomas e à escola, agora com intervalo de confiança para cada proporção.

Fator de OportunidadeRizomasIC 95%Escolap (≠ 50%)Mudança
Orientação clara e útil
Receber orientação prática sobre como melhorar
89%[80%, 95%]11%<0,001Adulto de Confiança
Elogio específico ao processo
Receber elogios que apontam esforço e progresso
85%[75%, 91%]15%<0,001Reconhecimento
Feedback com próximo passo
Receber devolutivas que dizem o que fazer diferente
85%[75%, 91%]15%<0,001Reconhecimento
Resolução respeitosa de conflitos
Ver conflitos resolvidos com respeito e justiça
84%[74%, 91%]16%<0,001Ambiente Seguro
Protagonismo e voz ativa
Ter espaço para dar ideias e participar de decisões
81%[70%, 88%]19%<0,001Desenvolvimento Pessoal
Altas expectativas realistas
Ter adultos que esperam o melhor de você
78%[67%, 86%]22%<0,001Reconhecimento
Média geral76%[68%, 83%]24%<0,001

Todas as proporções têm intervalo de confiança que exclui 50% e p < 0,001. A diferença entre Rizomas e escola é estatisticamente significativa em todos os fatores. O Rizomas aparece como fonte dessas oportunidades com frequência três vezes maior que a escola. O programa também aparece frequentemente junto com a casa. Ele não substitui a família. Preenche lacunas quando a família não consegue oferecer determinadas condições, e oferece o que a escola pública em contextos de vulnerabilidade dificilmente consegue prover.

Associação com o tempo de programa

Comparamos o bem-estar e os fatores-chave entre adolescentes com diferentes tempos de programa. Agora com n por subgrupo, teste estatístico e tamanho do efeito.

45,7
0–1 ano
n=7 | DP=11,7
69,2
2 anos
n=11 | DP=10,3
71,8
3 anos
n=13 | DP=8,7

Teste Mann-Whitney U (0–1 ano vs 3 anos): U=1, p < 0,001. Cliff's δ = +0,98 (efeito grande).

Um adolescente com 3 anos de Rizomas relata, em média, uma satisfação com a vida cerca de 57% maior que um recém-chegado. A diferença é estatisticamente significativa e o tamanho do efeito é grande.

Cuidado com o n por subgrupo: a comparação entre 0–1 ano (n=7) e 3 anos (n=13) envolve apenas 20 jovens. O efeito é grande e claro, mas com tão poucos respondentes em cada grupo, o intervalo de incerteza ao redor das estimativas individuais é amplo. Em 2026, com mais participantes, esta análise terá muito mais robustez. Por enquanto, é uma indicação forte que precisa de confirmação.

A adolescência é uma fase onde o bem-estar tipicamente cai. O corpo muda, as pressões sociais aumentam, o futuro parece incerto. Em contextos de vulnerabilidade, essa queda tende a ser mais acentuada. O padrão observado no Rizomas vai na direção oposta. Quanto mais tempo no programa, maior o bem-estar relatado. Isso é consistente com a hipótese de que o programa funciona como fator de proteção.

Fatores com maiores diferenças entre recém-chegados e participantes com 2+ anos:

FatorNovos (n=18)2+ anos (n=60)Δ%p (FDR)Cliff's δMudança
Esperança — sonhos e planos
Ter sonhos e planos e sentir que vale a pena tentar
31,982,4+159%<0,001+0,97 (grande)Orientação ao Futuro
Esperança — caminhos
Enxergar caminhos e alternativas para chegar aos objetivos
44,087,4+99%<0,001+0,95 (grande)Orientação ao Futuro
Elogio específico ao processo
Receber elogios que apontam esforço e progresso
31,164,0+105%<0,001+0,86 (grande)Reconhecimento
Atenção sustentada
Manter o foco até concluir o que começa
44,067,8+54%<0,001+0,71 (grande)Autogestão
Hábitos e rotinas
Chegar no horário e cumprir rotinas e responsabilidades
58,068,0+17%0,070+0,23 (pequeno)Responsabilidade

As maiores diferenças estão em Orientação ao Futuro: ter sonhos e planos, e enxergar caminhos para realizá-los. Marques, Gallagher e Lopez (2017), em meta-análise de estudos sobre esperança em contexto escolar, encontraram que esperança está associada a melhor desempenho acadêmico, maior engajamento e menor evasão. Para adolescentes em contextos de vulnerabilidade, essa dimensão sustenta escolhas de longo prazo mesmo quando o ambiente ao redor não colabora.

Associação com a presença no programa

Comparamos jovens com alta presença (≥90%) e baixa presença (≤73%). Cada subgrupo tem cerca de 20 jovens — uma comparação com base estatística razoável dentro do n total.

FatorBaixa (n=21)Alta (n=17)Δ%p (FDR)Cliff's δMudança
Cuidado com pertences
Cuidar dos materiais e manter as coisas em ordem
52,080,4+55%<0,001+0,78 (grande)Responsabilidade
Cumprir combinados
Cumprir regras e acordos, mesmo quando ninguém está olhando
55,074,9+36%<0,001+0,66 (grande)Responsabilidade
Resistência à pressão de pares
Dizer "não" quando amigos pressionam para fazer algo errado
54,071,0+31%0,002+0,57 (grande)Competências Sociais
Pertencimento
Sentir que faz parte e pode contar com o grupo
46,060,0+30%0,003+0,53 (grande)Amizades Positivas

Os fatores com maiores diferenças estão ligados a Responsabilidade e Competências Sociais. São capacidades que dependem de prática, rotina e convivência continuada.

Uma parte dessa associação pode refletir perfil — jovens com mais presença podem vir de contextos familiares mais organizados, onde a responsabilidade já se desenvolve em casa. Mas mesmo controlando por isso, um fator se destaca: resistência à pressão de pares (+31%, p = 0,002, efeito grande). Essa capacidade depende menos do contexto familiar e mais do ambiente social em que o jovem está inserido. Adolescentes são particularmente suscetíveis ao grupo de referência. Quando o jovem comparece com frequência, ele entra repetidas vezes num espaço com combinados, responsabilidades e convivência estruturada. Num território tomado pela violência e tráfico, isso é proteção concreta.

Associação com a participação nas atividades socioemocionais

Dentre os participantes do contraturno escolar, os que também participam das atividades socioemocionais aos domingos apresentam níveis mais altos em Autogestão e Regulação Emocional — as mesmas mudanças que aparecem como necessidades prioritárias.

FatorNão part. (n=66)Participa (n=12)Δ%p (FDR)Cliff's δMudança
Estratégias de regulação
Usar pausa, respiração ou reavaliação para se acalmar
40,067,8+70%<0,001+0,71 (grande)Regulação Emocional
Consciência emocional
Reconhecer o que está sentindo e colocar em palavras
44,071,0+61%<0,001+0,66 (grande)Regulação Emocional
Percepção sinais do corpo
Perceber sinais do corpo quando fica sobrecarregado
51,073,3+44%<0,001+0,67 (grande)Regulação Emocional
Flexibilidade cognitiva
Trocar de estratégia quando algo não funciona
50,070,9+42%<0,001+0,60 (grande)Autogestão
Cuidado importante: o grupo de participantes socioemocional é pequeno (n=12). As diferenças observadas são grandes e estatisticamente significativas, mas com tão poucos respondentes os números individuais podem ser influenciados por características específicas desses jovens. Em 2026, com a expansão do programa de domingo, esta análise ganhará robustez.

Os jovens que participam das atividades de domingo também estão completando o segundo ano de contraturno, no momento em que a mensuração foi realizada. As diferenças observadas provavelmente refletem a combinação das duas frentes. O contraturno oferece exposição diária a um ambiente estruturado onde essas capacidades são praticadas no cotidiano, com frequência e consistência. O domingo complementa com um formato diferente: voluntário, mais leve, associado a projetos e brincadeiras, sem a carga do dia escolar. Uma hipótese é que a prática diária constrói a base e o formato de domingo ajuda a fixar, num contexto onde o jovem está mais receptivo. Isolar o efeito de cada um exigiria uma análise separada, prevista para o próximo ciclo.

Perfis dos participantes — Análise Exploratória

Esta análise pergunta uma coisa simples: dentro dos 78 jovens atendidos, existem subgrupos com perfis distintos de capacidades e oportunidades?

A resposta tem valor prático. Identificar perfis ajuda a personalizar o atendimento — jovens em situação mais frágil podem receber atenção diferenciada, jovens mais robustos podem ser convidados a liderar atividades, e o programa ganha uma forma concreta de acompanhar movimento entre perfis ao longo do tempo.

Como foi feito

Usamos um algoritmo chamado K-means, que agrupa pessoas com perfis parecidos. O algoritmo encontra automaticamente os agrupamentos mais coesos, sem que precisemos pré-definir quem vai com quem. Testamos vários números possíveis de grupos (2, 3, 4 e 5) e o critério de qualidade (silhouette score) indicou que 3 grupos representa bem a estrutura dos dados.

A análise usa as 10 mudanças padronizadas como base para encontrar os perfis. A visualização abaixo projeta os 78 jovens em duas dimensões resumidas (via PCA), de modo que dá para enxergar visualmente como eles se separam.

Perfis dos jovens — análise de cluster
Figura 4. Esquerda: 78 jovens projetados em duas dimensões resumidas. Cada cor é um perfil identificado pela análise. Direita: distribuição do bem-estar por perfil.

Os três perfis identificados

Perfiln%Bem-estar% adolescentesPontos altosPontos baixos
Perfil 1 — Meio típico4153%66,237%Amizades Positivas, Adulto de Confiança
Perfil 2 — Florescendo2735%77,141%Amizades Positivas, Regulação EmocionalDesenvolvimento Pessoal, Adulto de Confiança
Perfil 3 — Em desafio1013%49,450%Regulação Emocional, Competências SociaisOrientação ao Futuro, Reconhecimento

O que cada perfil sugere

Perfil 1 — Meio típico (53% dos jovens). Bem-estar próximo da média geral. Apresenta níveis razoáveis em todas as mudanças, sem grandes picos nem grandes lacunas. Provavelmente o "perfil padrão" do programa — jovens já beneficiados pelo ambiente do Rizomas, mas com espaço para crescimento em várias dimensões.

Perfil 2 — Florescendo (35% dos jovens). Bem-estar substancialmente acima da média (77,1 vs 67,8 geral). Destaca-se em amizades positivas e regulação emocional. Curiosamente, este perfil tem pontuação relativamente mais baixa em alguns elementos do "ambiente" — sugerindo que esses jovens conseguiram desenvolver capacidades internas robustas que sustentam o bem-estar de forma mais autônoma. Em outras palavras: as habilidades já estão funcionando. Podem ser candidatos naturais a papéis de liderança em atividades do programa.

Perfil 3 — Em desafio (13% dos jovens — 10 jovens). Bem-estar consideravelmente abaixo da média (49,4). O grupo mais frágil. Apresenta lacunas importantes em Orientação ao Futuro e Reconhecimento — duas das mudanças mais ligadas ao bem-estar nesta amostra. A proporção de adolescentes neste grupo é mais alta (50%), consistente com o padrão de que a adolescência amplifica vulnerabilidades quando a base de apoio é frágil. Este é o grupo que mais se beneficiaria de atenção diferenciada dos educadores.

Cuidado importante: esta análise é exploratória. Com n=78, os perfis identificados podem mudar substancialmente em outra amostra. Não use estes três grupos como rótulos fixos para jovens individuais — use como ferramenta de leitura coletiva. Quando os dados longitudinais de 2026 chegarem, será possível ver quem se moveu entre perfis ao longo do tempo. Esse é, talvez, o uso mais valioso desta análise: preparar o terreno para medir efeito individual do programa daqui em diante.

PARTE 5:
Considerações e próximo ciclo

Considerações e Próximo Ciclo

Este ciclo cumpriu o que se propôs. Construiu uma fotografia inicial do bem-estar dos participantes, identificou quais fatores mais importam para esse bem-estar, mapeou necessidades prioritárias e pontos fortes, e encontrou sinais consistentes de associação entre a participação no programa e os resultados observados. As análises de mediação e moderação por idade acrescentam camadas que mostram como o programa funciona e para quem funciona melhor em cada dimensão.

O que aprendemos

A tese de impacto se sustenta empiricamente. A análise de mediação confirmou que parte do efeito do ambiente do Rizomas sobre o bem-estar dos jovens passa pelo desenvolvimento de capacidades internas — exatamente como a tese de impacto do programa afirma. Cerca de 30% do efeito é mediado por habilidades, e os outros 70% acontecem por via direta (sensação de pertencimento, segurança, acolhimento).

Crianças e adolescentes precisam de coisas diferentes. Para adolescentes, Adulto de Confiança e Orientação ao Futuro têm peso muito maior no bem-estar do que para crianças. Não significa que esses fatores não importem para crianças (elas têm correlação positiva também), mas o investimento nessas dimensões tem retorno desproporcional para adolescentes.

O perfil dos 10 jovens em desafio precisa de atenção. A análise de cluster identificou um subgrupo de 13% dos participantes com bem-estar substancialmente abaixo da média e lacunas em Orientação ao Futuro e Reconhecimento. São jovens elegíveis para apoio diferenciado dentro do programa. Em ciclos futuros, vale acompanhar quantos saem desse perfil — esse será o sinal mais direto de efeito individual do Rizomas.

O que orienta o próximo ciclo

O desenho transversal permitiu comparar grupos, mas não acompanhar indivíduos. A partir de 2026, a mensuração passa a incluir medidas repetidas dos mesmos participantes ao longo do tempo. Com isso, será possível observar mudanças individuais. Quanto um jovem específico avançou em regulação emocional ao longo de um ano. O que diferencia quem avança mais rápido. Quais atividades do programa estão mais associadas ao desenvolvimento de cada capacidade.

A aplicação dos instrumentos em 2025 revelou que algumas perguntas não ficaram suficientemente claras para a faixa etária e o contexto dos participantes. Esses itens foram revisados e ajustados para o ciclo de 2026, com nova rodada de teste piloto.

O ciclo de 2026 já coletou o baseline com os novos entrantes do contraturno. A segunda mensuração acontece no fim do ano. Isso permitirá, pela primeira vez, comparar o mesmo jovem em dois momentos diferentes e medir a mudança real ao longo do período.

Aprimoramentos metodológicos sugeridos

Identificamos também caminhos para fortalecer ainda mais a mensuração nos próximos ciclos:

Limitações que precisam continuar explícitas

O Rizomas opera com seriedade metodológica, e seriedade metodológica significa reconhecer com clareza onde a evidência é forte e onde precisa de mais robustez. Estas limitações se mantêm:

A mensuração evolui junto com o programa. O primeiro ciclo testou a abordagem e gerou as primeiras evidências. O próximo aprofunda.

Glossário

Conceitos da Mensuração

Bem-estar (indicador-âncora). A avaliação que a pessoa faz da própria vida como um todo. Medido pela Escala de Satisfação com a Vida (SWLS). Funciona como o indicador central da mensuração. Se o bem-estar melhora, a vida melhorou. Se não melhora, independentemente do que aconteceu nas partes, o resultado final não mudou.

Mudanças (Outcomes, em inglês). As dimensões que influenciam o bem-estar. Dividem-se em capacidades e oportunidades. São o nível intermediário da mensuração, entre o bem-estar geral e os fatores específicos.

Capacidades. O que a pessoa consegue fazer e ser. Habilidades internas que podem ser desenvolvidas. Quando uma capacidade está baixa, o caminho é desenvolver. Exemplos: regulação emocional, autogestão, competências sociais.

Oportunidades. O que o ambiente oferece. Condições externas às quais a pessoa tem ou não acesso. Quando uma oportunidade está ausente, o caminho é prover. Exemplos: adulto de confiança, ambiente seguro, amizades positivas.

Fatores. Os indicadores específicos e mensuráveis dentro de cada mudança. São o nível que permite ação concreta. "Regulação Emocional" é uma mudança. "Reconhecer o que está sentindo e colocar em palavras" é um fator. Cada fator corresponde a uma pergunta no instrumento de coleta.

Necessidade prioritária. Fator com correlação alta com o bem-estar e nota baixa no grupo. Importa muito e ainda está fraco. Representa onde há mais espaço para crescimento e maior potencial de retorno.

Ponto forte. Fator com correlação alta com o bem-estar e nota alta no grupo. Importa muito e já funciona. Representa o que o programa entrega bem e precisa proteger.

Filtro de atuação. Critério metodológico que prioriza, na mensuração, fatores sobre os quais o programa tem capacidade de influência. Fatores reais mas fora do alcance do programa (saneamento, segurança pública, renda) ficam no diagnóstico do território, mas não entram no instrumento de coleta.

Design transversal (cross-sectional). Desenho de pesquisa que mede todos os participantes em um único ponto no tempo. Permite comparar grupos diferentes (por exemplo, recém-chegados vs. participantes com 2+ anos), mas as diferenças encontradas representam associação, não causalidade.

Conceitos Estatísticos

ρ (rô) — Correlação de Spearman. Mede o quanto duas variáveis variam juntas, sem assumir relação linear estrita. Vai de −1 a +1. Quanto mais distante de zero, mais forte a relação. Robusta a distribuições não-normais e adequada para escalas Likert.

p (valor-p). Probabilidade de obter o resultado observado (ou mais extremo) se a hipótese nula fosse verdadeira. Por convenção, p < 0,05 indica que o resultado é improvável de ter ocorrido por acaso. Não é a probabilidade de a hipótese ser verdadeira.

IC 95% — Intervalo de Confiança. Faixa em que o valor verdadeiro do parâmetro tem 95% de chance de estar. Para correlações, calculado via transformada Fisher z. Quanto mais estreito, mais precisa a estimativa. Para n=78, ICs são naturalmente largos.

Cliff's δ. Tamanho do efeito para comparações entre dois grupos com Mann-Whitney. Vai de −1 a +1. |δ| < 0,15 é desprezível, |δ| ≈ 0,33 é médio, |δ| > 0,47 é grande. Diferente de p, não depende do tamanho da amostra.

Mann-Whitney U. Teste não-paramétrico para comparar dois grupos independentes. Avalia se as distribuições diferem em locação. Robusto a outliers e distribuições assimétricas. Usado em vez do t-test quando os pressupostos não estão claros.

Correção FDR (Benjamini-Hochberg). Ajuste para múltiplas comparações que controla a taxa de descobertas falsas — a proporção de achados positivos que são na verdade falsos. Mais apropriada que Bonferroni em análise exploratória, onde se aceita algum risco em troca de não perder achados verdadeiros.

Análise de mediação. Modelo estatístico que decompõe o efeito de uma variável X sobre Y em efeito direto (X → Y) e efeito indireto (X → M → Y) através de um mediador M. O intervalo de confiança do efeito indireto, calculado por bootstrap, indica se a mediação é estatisticamente significativa.

Bootstrap. Técnica de reamostragem que estima a distribuição de uma estatística sorteando, com reposição, milhares de amostras a partir dos dados originais. Permite calcular intervalos de confiança sem assumir distribuição teórica. Usada na análise de mediação (5.000 amostras).

Análise de cluster (K-means). Método não-supervisionado que agrupa observações com perfis similares. O algoritmo encontra k grupos que minimizam a variância intra-grupo. Silhouette score avalia a qualidade do agrupamento.

Referências Bibliográficas

As capacidades e oportunidades mensuradas neste estudo são sustentadas por evidência científica consolidada. Abaixo, as principais referências organizadas por área.

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ANEXOS

Anexo 1: Fatores Mensurados e Definições

Capacidades — Autogestão

FatorDefinição
Atenção sustentadaManter o foco até concluir o que começa.
Controle inibitório e retomada após distraçãoSegurar o impulso e voltar ao foco depois de se distrair.
Flexibilidade cognitivaTrocar de estratégia quando algo não funciona.
PlanejamentoOrganizar tarefas em passos e se preparar com antecedência.

Capacidades — Regulação Emocional

FatorDefinição
Consciência emocionalReconhecer o que está sentindo e conseguir colocar em palavras.
Percepção dos sinais do corpoPerceber sinais do corpo quando começa a ficar sobrecarregado.
Estratégias de regulaçãoUsar pausa, respiração ou reavaliação para se acalmar.
Retomada da meta após frustraçãoVoltar para a tarefa e continuar depois de se frustrar.

Capacidades — Competências Sociais

FatorDefinição
EmpatiaPerceber como o outro está se sentindo e agir com consideração.
Comunicação respeitosaDizer o que pensa com respeito, mesmo quando discorda.
Resistência à pressão de paresDizer "não" quando amigos pressionam para fazer algo errado.
Resolução de conflito sem agressãoResolver conflitos sem xingar, ameaçar ou bater.

Capacidades — Responsabilidade

FatorDefinição
Cumprir combinadosCumprir regras e acordos, mesmo quando ninguém está olhando.
Cuidado com pertencesCuidar dos materiais e manter as coisas em ordem.
Hábitos e rotinasChegar no horário e cumprir rotinas e responsabilidades.
Honestidade e integridadeFalar a verdade e agir com integridade em situações difíceis.

Capacidades — Orientação ao Futuro

FatorDefinição
AutoeficáciaAcreditar que dá para aprender e melhorar com dedicação.
Esperança (sonhos e planos)Ter sonhos e planos e sentir que vale a pena tentar.
Esperança (caminhos)Enxergar caminhos e alternativas para chegar aos objetivos.
PerseverançaPersistir e tentar de novo quando não consegue de primeira.

Oportunidades — Adulto de Confiança

FatorDefinição
Adulto de referênciaTer um adulto de confiança para conversar quando precisa.
Orientação clara e útilReceber orientação prática sobre como melhorar, com exemplos e clareza.
EncorajamentoSer incentivado por adultos que acreditam no seu potencial.
Estrutura e limites justosViver com limites claros e justos, aplicados com respeito.

Oportunidades — Ambiente Seguro

FatorDefinição
Segurança psicológicaSentir que pode ser quem é, sem medo de humilhação.
Regras claras e justasVer regras claras e justas, aplicadas de forma igual.
PrevisibilidadeSaber o que vai acontecer e o que é esperado.
Resolução respeitosa de conflitosVer conflitos serem resolvidos com respeito e justiça.
Ritmo de aprendizagem respeitadoTer tempo e apoio para aprender no próprio ritmo.

Oportunidades — Amizades Positivas

FatorDefinição
Normas pró-sociais dos paresConviver com pares que valorizam estudar, tentar e cumprir regras.
Amizades positivasTer amigos que puxam para escolhas positivas.
Apoio do grupoPoder contar com amigos quando precisa.
Convites de riscoReceber menos convites e pressão para situações de risco.

Oportunidades — Reconhecimento

FatorDefinição
Elogio específico ao processoReceber elogios que apontam esforço, estratégia e progresso.
Valorização do esforçoTer esforço e estratégia reconhecidos, mesmo sem resultado perfeito.
Reconhecimento de progressoTer progresso percebido e reconhecido ao longo do tempo.

Oportunidades — Desenvolvimento Pessoal

FatorDefinição
Aprendizagem significativaAprender coisas que fazem sentido e despertam curiosidade.
Aplicação do aprendizadoUsar o que aprende em outros contextos da vida.
Protagonismo e voz ativaTer espaço para dar ideias e participar de decisões.
Modelos positivosTer contato com pessoas que inspiram e mostram caminhos possíveis.

Anexo 2: Modelo de Impacto Social

O modelo de impacto social organiza a lógica do programa numa cadeia que conecta o que o Rizomas investe, faz, entrega e muda na vida dos participantes.

Impacto

Elevar o bem-estar de crianças e adolescentes em contextos de vulnerabilidade, para que estejam na melhor posição para alcançar seu potencial e viver uma vida que valorizam.

Mudanças (capacidades e oportunidades)

O Rizomas alcança esse impacto desenvolvendo capacidades e proporcionando acesso a oportunidades.

Capacidades

Autogestão. Atenção sustentada, controle inibitório, flexibilidade cognitiva, planejamento. Moffitt et al. (2011) acompanharam 1.000 crianças por 32 anos e encontraram que o nível de autocontrole na infância prediz saúde, renda e envolvimento criminal na vida adulta, independentemente da inteligência e da classe social de origem.

Regulação Emocional. Consciência emocional, percepção dos sinais do corpo, estratégias de regulação, recuperação após frustração. Aldao, Nolen-Hoeksema e Schweizer (2010), em meta-análise de 114 estudos, encontraram que estratégias de regulação emocional estão entre os fatores mais associados à saúde mental em crianças e adolescentes.

Competências Sociais. Empatia, comunicação respeitosa, resistência à pressão de pares, resolução de conflito sem agressão. Durlak et al. (2011), em meta-análise de 213 programas de aprendizagem socioemocional envolvendo 270.034 alunos, encontraram ganhos em competências sociais, redução de problemas de conduta e melhora no desempenho acadêmico.

Responsabilidade. Cumprir combinados, cuidado com pertences, hábitos e rotinas, honestidade e integridade. Os dados da mensuração mostram que hábitos e rotinas apresentam correlação de 0,51 com o bem-estar, uma das mais altas entre todos os fatores medidos.

Orientação ao Futuro. Autoeficácia, esperança (sonhos e caminhos), perseverança. Marques, Gallagher e Lopez (2017), em meta-análise sobre esperança em contexto escolar, encontraram que esperança está associada a melhor desempenho acadêmico, maior engajamento e menor evasão.

Oportunidades

Adulto de Confiança. Adulto de referência, orientação clara e útil, encorajamento, estrutura e limites justos. DuBois et al. (2011), em revisão sistemática de 73 estudos sobre programas de mentoria, concluíram que a presença de um adulto de referência estável é um dos fatores de proteção mais consistentes para jovens em vulnerabilidade. Werner e Smith (1992, 2001), no estudo longitudinal de Kauai que acompanhou 698 crianças em situação de risco por 40 anos, identificaram que a presença de pelo menos um adulto estável e acolhedor foi o fator que mais diferenciou as crianças que conseguiram se desenvolver apesar das adversidades.

Ambiente Seguro. Segurança psicológica, regras claras e justas, previsibilidade, resolução respeitosa de conflitos. Thapa et al. (2013) revisaram a literatura sobre clima escolar e encontraram que a percepção de segurança e justiça no ambiente está associada a maior engajamento, menor evasão e melhor saúde mental.

Amizades Positivas. Normas pró-sociais, amizades positivas, apoio do grupo, pertencimento. Chetty et al. (2022), usando dados de 21 milhões de pessoas nos Estados Unidos, demonstraram que o capital social, em particular a conexão com pessoas de contextos diversos, é um dos fatores mais associados à mobilidade econômica.

Reconhecimento. Elogio específico, valorização do esforço, feedback com próximo passo, altas expectativas. Hattie e Timperley (2007), em revisão de mais de 500 meta-análises, encontraram que feedback específico sobre o processo (e não sobre a pessoa) é uma das intervenções com maior efeito sobre o aprendizado.

Desenvolvimento Pessoal. Aprendizagem significativa, aplicação do aprendizado, protagonismo, modelos positivos. Roorda et al. (2011) encontraram que relações afetivas com educadores aumentam o engajamento escolar, e que esse efeito é mais forte em alunos de contextos vulneráveis.

INSTITUTORIZOMAS

Relatório Técnico de Impacto Social 2025

O bem-estar de crianças e adolescentes no Capão Redondo

Mensuração: SIC — Social Impact —
Organização: Instituto Rizomas —
Local: Capão Redondo, São Paulo —
Data: 2025